quarta-feira, 29 de março de 2017

Uma reverência ao amor louco

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS
 
 
 
Falamos com boca cheia sobre a virtude. Mas , caímos de joelhos diante do vicioso, do tortuoso, do pagão, daquilo que não tem medo nem vergonha de ser o que é.
 
Falamos com boca cheia , um sorrisinho levemente desdenhoso e superior sobre a sensatez. Mas, caímos de joelhos diante do atrevimento, do despudor, do cheiro de cigarro, das cicatrizes da alma.
 
Falamos com boca cheia sobre o comedimento. Mas, tudo que sacia a alma , transborda.  Não é o mais nobre que se embriaga com o mais rasgado amor. É o que melhor rasteja, baba e uiva. É o que melhor se desnuda e se entrega com um olhar de fúria e desesperado afeto.
 
Não me venha falar sobre o recato...já estou no quinto ou sexto copo de passionalidade. Já bebi de muitos venenos com este ar docemente torpe.  Já bebi o teu sangue com um canudinho. Já beijei tuas cicatrizes com estes lábios sarcásticos, com estes olhos  ludicamente tristes.  Não se iluda com a minha alegria , com o meu riso frouxo. A minha nudez dorme calmamente na minha tristeza. Tudo que há de mais doce e amargo, suave e devastador mora nas minhas lembranças esgarçadas, em tudo aquilo que poderia ter sido e não foi por preguiça , medo, descaso.
 
Saio correndo com você , mãos dadas , por ruas imaginárias. O mundo é uma poesia concreta. Empurramos os versos a fim de gerar novas formas , novas possibilidades. Mas lá no fundo , sabemos que terminaremos a noite com os mesmos olhos de sempre. Me oferece a tua solidão e me sinto preencher. Sorrio para mim mesma.
 
 


 

 
 
 

 
 
 
 
 
 
 








 


Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.









sexta-feira, 3 de março de 2017

Nua e crua

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS
 
 

 
Chega uma hora na vida em que a gente não quer mais aprender à custa de sofrimento. Que a gente prefere ficar sem aprender mais nada. Chega uma hora que a gente cansa de tentar ser uma pessoa melhor. A gente quer só ser a gente mesmo, com todas as nossas contradições. A gente quer alguém que não fique apontando cada um dos nossos pontos cegos , alguém que  não fique nos arrancando da zona de conforto. Chega um momento em que a gente quer apenas viver.
 
Ao ver o post de uma amiga querida no Facebook, pensei no quanto estou cansada. Minha amiga se encaminhava para um parque com o filho pequeno ( 8 anos creio eu) para caminhar e assim obter energia. Deixei um comentário jocoso. Disse que estava em busca de um barranco...ok.ok.ok. Foi uma piada. Mas daquele tipo que tem um fundo de verdade gigantesco. Daquele tipo que tem tudo a ver com a gente , com a nossa canseira.
 
Sim, estou cansada. Muito cansada de tentar ser melhor . Estou muito cansada de compreender, aceitar , tentar me adequar. Muito cansada de fazer aquilo que eu não quero porque é meu dever, porque é gentil, porque por alguma razão me obrigam a fazer.
 
Estou cansada de esperar o aval alheio para ser eu mesma. Estou cansada de pedir desculpas por não ser perfeita. Quero ser apenas eu. Pode não ser grande coisa, mas pelo menos é autêntico. Posso ser meio bizarra, mas pelo menos sou intensa e profunda , muito mais do que muitos podem dizer de si.
 
Cansei desta história de tentar me encaixar na vida dos outros, nas prioridades dos outros. Cansei de fazer das prioridades alheias as minhas por um olhar de afeto.
 
Quero simplesmente poder falar sem escolher as palavras, sem medi-las , sem pesa-las. Quero simplesmente olhar nos olhos das pessoas sem medo de mostrar quem sou. Sem pedir perdão por existir. Sem pedir perdão por não atender às expectativas de um mundo que não compreendo.
 
Quero simplesmente o riso sexy abandonado no fundo da taça de vinho, daqueles que se sabem perdidos. Quero simplesmente um abraço terno antes de dormir para me esquecer que nada faz muito sentido. E daí?
 
Quero simplesmente saborear a vida em garfadas fartas, cheias de molho apimentado e sarcasmo.
 
Quero simplesmente beber da arte que vejo em teus olhos e rir sem saber muito bem o porquê.
 
 
 
 
 
 














Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.