terça-feira, 14 de novembro de 2017

O que não posso dizer

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS


Pertenço àquela categoria de gente suja e descuidada, que se entrega com um olhar , com um sorriso de canto de boca , que tudo revela ao tentar esconder.

Choro em silêncio atrás do biombo da vida. Seminua , secretamente desesperada , apenas um colar de pérolas dando três voltas em meu coração de poeta. 

Meu copo se esvaziou há milênios e no meu coração só restou um gosto de vinho vencido.

Não pode entender o meu abismo. Não diga sinto muito enquanto apunhala minha alma andarilha. Palavras nada significam e se insisto em usá-las é por puro vício. 

Não pode preencher meu vazio. Não diga que me ama enquanto olha distraído para o outro lado da rua.

Passo por meio dos carros com um vestido esvoaçante. Os pingos grossos de chuva beijam meus lábios. Preciso tanto ser devorada...




































































Sílvia Marques é escritora, professora doutora ,  escreve na Obvious, idealizadora da pós em Cinema do Complexo FMU, psicanalista. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.

sábado, 11 de novembro de 2017

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Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS


Sou irônica. Um pequeno truque usado por aqueles que já entenderam que tudo ou quase tudo é nada. Um pequeno truque daqueles que já viram da varanda de casa um desfile de embustes envoltos em papel celofane , chantili e mediocridade disfarçada de bons sentimentos.

Existe algo de belo na crueldade. No sorriso amargo de canto de boca , que diz para si mesmo "eu já vi este filme muitas e muitas vezes e não gosto do desfecho". 

Abro o fecho do colar. No meu colo nu mil histórias tatuadas em cores invisíveis. O sorriso torto e amargo persiste.  Ouço as pérolas de um colar gigante despencarem do meu peito esgarçado.  Se espalham pelo chão do quarto. Da alma. 

Diante do espelho da vida , me demaquilo. Há pouca maquiagem. Costumo andar de rosto lavado. Apenas meu batom vermelho e este ar de surpresa diante de notícias velhas que agora só servem para reter a urina e as fezes dos cachorros. 

Estou cansada. Deixo um pouco de rímel misturado á uma falsa dignidade. Meu copo está vazio. Mas não quero preenchê-lo. Quero sorver até a última gota da minha poesia barata.

Quero me manter de olhos abertos para sentir o tédio me rasgar por dentro. O sorriso torto e amargo persiste. Virou quase uma tatuagem, uma segunda pele , um codinome , o meu signo ascendente jogando seus mil véus sobre  um possível eu que dança nu, bêbado e louco por aí. 

Queria ouvir uma canção francesa e me emocionar, mas só escuto um...#$%@














































































Sílvia Marques é escritora, professora doutora ,  escreve na Obvious, idealizadora da pós em Cinema do Complexo FMU, psicanalista. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Um balde de afeto diante da tela da vida

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Olho para a tela do cinema . Me sinto engolida por ela. Um balde gigante de pipoca amanteigada no colo. Levo um punhado á boca com displicência. Pelo menos aparentemente. Mastigo a pipoca nervosamente, engulo-a como me sinto engolida pelas imagens que dançam e gritam e gemem á minha frente.

Me sinto mais uma vez criança. Talvez nunca tenha deixado de ser. Espalmo as mãos sujas de tintas coloridas na tela em branco da vida. Moldo a argila fresca ao meu bel prazer. Sorrio diante de qualquer monstruosidade que crio por acaso. 

Sujo o rosto com as tintas pasteis da tela de uma sociedade que tenta me calçar com saltos finos e um ar distinto que em nada combina com meu batom vermelho e meu brinco grande em uma orelha apenas. 

Limpo o tom nude da alma pois o amor é vermelho e como boa insana sei que tudo começa e termina nele. Danço em círculos no círculo da vida. Fogueira queimando sentimentos que quero tatuar na alma. Amo feridas eternas. Disco riscado. Gemo junto com choros do passado. Existe algo de mágico em chafurdar nos próprios excrementos e no lixo que um dia jogaram sobre nosso corpo nu, débil, implorando por mais um olhar de amor.

Pego a última pipoca no balde sujo de manteiga. Engulo como quem come um punhado de afeto. Mais um gota , por favor. Estou com sede. 











































































Sílvia Marques é escritora, professora doutora ,  escreve na Obvious, idealizadora da pós em Cinema do Complexo FMU, psicanalista. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Caos

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Não me olhe com esta cara de quem sabe toda a verdade. Não tente me engolir com um beijo de amor nem agarrar a minha alma num abraço mundano.

Sinto o calor da sua respiração me comendo com a sua fome de amor e não sei o que dizer. Apenas sorrio. Para mim mesma. De mim mesma. A vida é um jogo de palavras e não sei o que dizer. Sou uma escritora desde sempre e tudo que posso fazer é te olhar e sorrir. Com este mesmo sorrisinho de canto de boca que dou como resposta lacônica e sedutora para o mundo.

Sim, a vida é um jogo de palavras e como gosto de tecer versos esgarçados,  molhados de vinho e lascívia, impregnados pela minha verdade subjetiva, danço ao ritmo do acaso bebendo da minha poesia barata. 

Sim, a vida é um jogo de palavras e o amor , o mais estridente dos estribilhos. Danço cada vez mais rápido, passos novos e desajeitados. Não sou um dos casais robóticos de Último tango em Paris...estou mais para Brando mostrando a bunda para esta gente que acha que sabe tudo com suas caras enfezadas e seu medo de flertar com o próprio desejo. Olho para ele. Olhos nos olhos. Me tira para dançar. Não sei dançar direito. Quem se importa com isso? 













































































Sílvia Marques é escritora, professora doutora ,  escreve na Obvious, idealizadora da pós em Cinema do Complexo FMU, psicanalista. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.

domingo, 15 de outubro de 2017

O amor é uma poesia em carne viva

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Sinto saudade da sua bagunça. Sinto saudade de ter você pigarreando pela manhã, passando displicentemente a mão no cabelo farto, tentando domá-lo enquanto aspiro o cheiro de fumo que exala da sua pele trigueira. 

Sinto saudade da sua cueca jogada pelo meio do caminho. Desvio para não pisar na sua roupa íntima com meus tênis grosseiros ou  meus saltos confortáveis, quadrados , perfeitos para quem não dirigiu a libido para o cumprimento dos protocolos ditos femininos.

Sinto-me eu mesma com meu batom vermelho, os braços arrepiados quando lança um sopro quente em meus ouvidos, os mamilos levemente atrevidos , uma vontade de não sei o quê. 

Posso suportar numa boa a saudade que sinto quando está longe de mim, tomando meu vinho branco bem gelado enquanto transformo meu mais banal dia a dia na mais cálida poesia. Quando desafio o tédio com um sorrisinho de canto de boca. 

Insuportável é sentir a sua falta quando se aninha em meus braços , nos mesmos braços arrepiados, nos mesmos braços que não podem te segurar , sentindo o calor da sua respiração colada ao meu decote descuidado. 

Sou uma mulher inadequada. Você sempre soube disso enquanto tragava um pensamento filosófico juntamente com a fumaça do cigarro, um jeito levemente sarcástico, algo entre "Estou extasiado" e "Estou nem aí".

Acho que gosto mais do seu niilismo do que do seu êxtase por mim. Não estou acostumada a ser desejada. Não sei ser desejada. Não sei onde colocar os braços.  Sinto falta de saber andar bem de salto. Mentira...mais um sorrisinho de canto de boca. Mais um verso de poesia tecido com as emoções da vida, com as mesmas emoções diluídas no fundo de uma taça de vinho. 






































































Sílvia Marques é escritora, professora doutora ,  escreve na Obvious, idealizadora da pós em Cinema do Complexo FMU, psicanalista em formação.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.

domingo, 8 de outubro de 2017

Por onde anda a garota desbocada?

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Me perguntaram sobre a garota desbocada esta semana e eu senti uma saudade verdadeira daquela sujeitinha irreverente , que se acha atraente com suas calcinhas de renda meio esgarçadas, com seus quilinhos a mais e seus mamilos rosados de mocinha com quase 40 anos. 

Que faz poesia com suas palavras mais gastas do que as rendas das  mesmas calcinhas que ela insiste em usar como quem repete velhas emoções diante de um copo vazio. 

Me sinto literariamente e existencialmente sóbria hoje. Busco o que dizer com a lembrança da pele da alma, com o gosto do vinho que tomei na semana passada. Reinvento o meu torpor porque como todo poeta, sou uma dissimulada que encena o próprio gozo, a própria dor. 

Porque como toda poeta me desnudo de mim mesma para sorver num canudinho imaginário o sangue do meu coração. 

Ás vezes, queria ser a garota desbocada mais uma vez. Ela é o tipo de mulher que faz até as mulheres perderem a cabeça. Se a encontrasse no meio da rua , atravessando-a de forma descuidada , a chamaria para um café e um dedo de prosa e juntas faríamos uma poesia de carne e osso.

Mas estou cansada. E me contento em dissimulá-la por meio das minhas palavras que significam nada enquanto escuto "Onde anda você" , com um sorrisinho de canto de boca, ruminando qualquer coisa muito insana.  




































































Sílvia Marques é escritora, professora doutora ,  escreve na Obvious, idealizadora da pós em Cinema do Complexo FMU, psicanalista. Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.











terça-feira, 5 de setembro de 2017

A vida cabe numa taça de Margarita

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS



Uma das pequenas delícias do amor é se botar de quatro na cama , esticar o braço para pegar qualquer coisa na mesinha de cabeceira , vestindo apenas calcinhas de rendas. Se elas estiverem levemente esgarçadas , melhor ainda. Dão um certo ar blasé , estilo "estou nem aí para esta coisa de roupas novas , calcinhas impecáveis e mais uma série de itens que fazem a cabeça das mulheres comuns".

Gosto de esticar bem o corpo , empinar bem as nádegas só para merecer um beijinho ou uma mordiscada no bumbum, sem passar horas na academia. 

Gosto de todo o caos mais ou menos organizado que ronda o quarto de um casal. Certas repetições , alguns lugares comuns que fazem parte do mise-mise-en-scène da vida a dois.  Eu finjo estar pegando alguma coisa ( ou estou pegando mesmo) e ele me morde com o vigor de um gesto novo e eu me surpreendo com a risada de sempre. 

Gosto de toda a rotina meio bagunçada que ronda a intimidade de um casal. Certas surpresas , pequenos imprevistos que fazem parte do frenesi do estar junto. A gente muda de planos no minuto final e de repente a vida cabe numa taça de Margarita.  Fica tudo com gosto de tequila queimando a garganta, um salgadinho nos lábios da alma sussurrando "Quero um gole a mais...". Mas precisa ser um daqueles bem longos! 





























































Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.