sexta-feira, 3 de março de 2017

Nua e crua

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS
 
 

 
Chega uma hora na vida em que a gente não quer mais aprender à custa de sofrimento. Que a gente prefere ficar sem aprender mais nada. Chega uma hora que a gente cansa de tentar ser uma pessoa melhor. A gente quer só ser a gente mesmo, com todas as nossas contradições. A gente quer alguém que não fique apontando cada um dos nossos pontos cegos , alguém que  não fique nos arrancando da zona de conforto. Chega um momento em que a gente quer apenas viver.
 
Ao ver o post de uma amiga querida no Facebook, pensei no quanto estou cansada. Minha amiga se encaminhava para um parque com o filho pequeno ( 8 anos creio eu) para caminhar e assim obter energia. Deixei um comentário jocoso. Disse que estava em busca de um barranco...ok.ok.ok. Foi uma piada. Mas daquele tipo que tem um fundo de verdade gigantesco. Daquele tipo que tem tudo a ver com a gente , com a nossa canseira.
 
Sim, estou cansada. Muito cansada de tentar ser melhor . Estou muito cansada de compreender, aceitar , tentar me adequar. Muito cansada de fazer aquilo que eu não quero porque é meu dever, porque é gentil, porque por alguma razão me obrigam a fazer.
 
Estou cansada de esperar o aval alheio para ser eu mesma. Estou cansada de pedir desculpas por não ser perfeita. Quero ser apenas eu. Pode não ser grande coisa, mas pelo menos é autêntico. Posso ser meio bizarra, mas pelo menos sou intensa e profunda , muito mais do que muitos podem dizer de si.
 
Cansei desta história de tentar me encaixar na vida dos outros, nas prioridades dos outros. Cansei de fazer das prioridades alheias as minhas por um olhar de afeto.
 
Quero simplesmente poder falar sem escolher as palavras, sem medi-las , sem pesa-las. Quero simplesmente olhar nos olhos das pessoas sem medo de mostrar quem sou. Sem pedir perdão por existir. Sem pedir perdão por não atender às expectativas de um mundo que não compreendo.
 
Quero simplesmente o riso sexy abandonado no fundo da taça de vinho, daqueles que se sabem perdidos. Quero simplesmente um abraço terno antes de dormir para me esquecer que nada faz muito sentido. E daí?
 
Quero simplesmente saborear a vida em garfadas fartas, cheias de molho apimentado e sarcasmo.
 
Quero simplesmente beber da arte que vejo em teus olhos e rir sem saber muito bem o porquê.
 
 
 
 
 
 














Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.









quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Quando nem tudo era cancerígeno

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS
 
 

Andando pelas ruas da cidade , acessando os sites da internet ou pegando de relance uma notícia na TV, os assuntos são basicamente os mesmos , além das tradicionais amenidades e escândalos políticos: pão sem glúten, café sem cafeína, cerveja sem álcool, cigarro eletrônico, beijo sem romance , sexo sem amor, bate papo sem contato visual.
 
Quando menina, uma vez, ao rejeitar um bom punhado de queijo parmesão sobre a macarronada, uma tia me disse que macarrão sem queijo era como namoro sem beijo.
 
Sinto saudade do tempo em que a gente comia fritura sem culpa e o pessoal podia fumar o seu cigarro sem se sentir um criminoso. Ok.Ok.Ok. Aquele lance de poder fumar em restaurante era muito chato. Muito chato mesmo.  Mas hoje em dia nem mesmo na rua os fumantes ficam em paz. Sempre tem alguém fazendo cara feia , fingindo tosse, criando todo um auê porque o outro optou por um estilo de vida não saudável.
 
Mas as pessoas se esquecem que a vida é cancerígena. Sim, a vida é cancerígena com seus desencontros , decepções e auto enganos. Com ou sem fumo, com ou sem gordura trans, com ou sem glúten, todos iremos para o mesmo lugar: para o cemitério. A bonitinha fitness vai ter as carnes apodrecidas como a gordinha que come a sua coxinha feliz da vida. Ok.Ok.Ok mais uma vez. Não defendo que a gente deva entupir as veias com gordura , jogando o colesterol na lua. Não defendo o hábito de fumar nem de encher a cara. Também não tenho nada contra uma boa salada e uma caminhada pela manhã.
 
O drama está no radicalismo, na intolerância , na crença ingênua de que seremos salvos pelo alface , pela academia , pelo pão sem glúten. Se uma vida saudável evita doenças graves e pode garantir mais alguns anos de existência, por outro lado, uma vida saudável fisicamente pode ser chata , mas muito chata mesmo para algumas pessoas...ou para muitas....ou para a maioria. O problema é que quase todo mundo têm medo de admitir que a gente era mais feliz quando podia comer o nosso pão com manteiga em paz, o nosso cafezinho com açúcar.
 
O problema é que o conhecimento que deveria nos libertar, está nos transformando em paranoicos. Pior do que isso:  em gente chata , sem prazer. Sim, não há nada mais broxante do que gente chata.
 
Sim, sinto saudade do tempo em que a gente não falava de câncer e colesterol e triglicérides o tempo todo. Sinto saudade do tempo em que comida era comida e não medicamento ou veneno. Sinto saudade da ignorância feliz, quando a gente não sabia que tudo era cancerígeno. Que tudo entope as veias , que tudo cria algum tipo de desgraça para o nosso organismo.
 
Sinto saudade do tempo em que a gente sonhava em se apaixonar para valer , ficar que nem bobo, de quatro, idealizando um beijo, pensando na pessoa amada antes de dormir para poder sonhar com ela.
 
Sinto saudade do tempo em que namorar por amor não era considerado cafona e os pais de família não eram vistos como alcoólatras por tomarem uma cervejinha juntamente com o feijão gordo.
 
Sinto saudade do cheiro de comida caseira , do bolo assando. Dos diários cheios de confidências de amor louco. Da molecada se reunindo no shopping para ver um filme e depois comer um sanduba.  Do tempo em que ver a selfie da vizinha periguete não era o melhor passatempo. Em que as pessoas se reuniam para ver ao Super Cine ou ao último capítulo de uma novela famosa. Acho triste reduzir os filmes e a vida à pequena tela do smartphone...
 
 

 
 














Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.









sábado, 4 de fevereiro de 2017

Os prazeres da vida adulta

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS
 
 
Uma das alegrias da vida adulta é ter seus próprios sapatos de salto. Não que eu seja muito chegada a eles. Prefiro ainda andar por aí com minhas botinas surradas. Mas de vez em quando gosto de brincar de menina elegante e botar meus saltos pretos , não muito altos ( não daria conta deles). Meus saltos pretos envernizados bem clássicos com cara de quem diz "Dei certo na vida".
 
Quando bem criança não podia ver uma mulher usando saltos. Pedia-os emprestados. Uma vez , quase matei minha mãe de vergonha, quando fiquei pedindo os sapatos da esposa do novelista Silvio de Abreu , que morava no mesmo prédio que a minha família. 

Normalmente usava-os da minha mãe. Não só os saltos , mas as bolsas , os óculos escuros , o batom...e maiorzinha punha numa bolsa velha mas distinta , destinada à brincar , um pequeno lápis como se fosse um cigarro e fingia que o guaraná era uísque. Podia me entupir de toxinas sem fazer mal algum.
 
De uísque eu não gosto. Mas aprecio um vinho. E hoje , posso ir andando até o mercado, com meus saltos pretos não muito altos , meu vestidinho sem costas comprar uma garrafa de vinho branco. Me movimento despreocupadamente. Mulher feita. Apesar do andar naturalmente deselegante agravado pela inabilidade de usar saltos , caminho como a mulher que gostaria de ser. Ou que poderia. Me sinto orgulhosa por poder comprar um vinho de 40 reais. Luxo para alguém que se dedica à profissão mais desimportante da sociedade. Aperto a garrafa do chardonnay chileno contra o peito ardente , imaginando-o bem gelado , dentro de uma taça sob os olhares mornos e suculentos daquele que amo.
 
Sim, chardonnay com provolone fica delicioso e pouco me importa se dizem que harmoniza ou não. Mas chardonnay com olhar de romance e risada compartilhada com quem nos entende fica bem melhor.
 
Sim, saio do mercado rumo à rua com um semblante sério. Mas por dentro estou sorrindo. Sorriso de menina travessa. Hoje , posso tomar vinho de verdade. Não preciso fingir que refrigerante é uísque nem pegar os sapatos da minha mãe.
 
Hoje , não preciso mais escrever numa lousinha , chacoalhando o braço para fazer barulho com as pulseiras maternas. Não preciso mais lecionar para as minhas bonecas enfileiradas no chão. Hoje , posso falar sacudindo a cabeça para agitar meus próprios brincos. Posso escrever numa lousa gigante para alunos de verdade. E hoje que posso, nem escrevo tanto assim... e quando os vejo anotando o que eu digo , sinto um frisson danado. "Nossa! Eles são muito mais legais do que as minhas bonecas!".

Uma vez, sem querer, com a melhor das boas intenções , destruí uma história em quadrinhos feita por meu irmão. Coloquei um sinal de certo em cada quadro. Não entendi quando ele ficou puto comigo. Ele havia tirado nota máxima pela minha avaliação! Ainda hoje , sinto muito prazer , fazendo sinais de certo nas provas dos alunos. Os sinais de errado saem menores , mais tímidos , quase pedindo desculpas. E quando um estudante olha admirado para a prova e diz que vai mostrar o seu dez para a mãe ficar orgulhosa , eu penso: "Mas é uma prova elaborada por mim. Não é possível que eles estejam a considerando um documento importante?".

E sobre os homens... as brigas com os meninos hoje em dia são muito mais gostosas. Na infância , a gente brigava e ponto final. Hoje , as brigas terminam com reticências , pontos de exclamação. Ás vezes , com três ou quatro exclamações.  Na infância os garotos  nos empurram na aula de Educação Física. Na fase adulta, os meninos nos empurram na direção da cama. E não precisa de professora para separar a briga não. A gente se resolve sozinho.
 
 
Sim, se engana , se engana muito quem diz que não existem deliciosos prazeres na vida adulta...
 
 

 



 
 














Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.









sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Como se faz uma garota desbocada

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

São necessários muitos tipos de garota para se formar uma garota desbocada. Sim, uma garota desbocada não é feita como bolo de pacotinho. Não basta misturar o preparado ao leite , dar uma batidinha de leve e botar para assar. 

Uma garota desbocada está mais para bolo feito por confeiteira, daquelas que preparam a massa fresquinha , o recheio cheio de mil coisinhas deliciosas, daquelas que usam pasta americana , confeitos e escreve o teu nome com glacê e faz uma carinha feliz com raspas de chocolate. 

Uma garota desbocada é feita com ingredientes variados e finos, embora o resultado soe bem espalhafatoso , debochado e cruel. 

Tudo começa com uma boa dose de romantismo do tipo mais ingênuo. É , não basta ser romântica meio termo light que curte ver filminho meloso com finalzinho feliz. Precisa ser romântica do tipo hardcore, que assiste a filmes trágicos, que lê duas vezes romances torturantes só para se certificar de que o coração vai ficar todo estilhaçado mesmo,  que escuta música triste  só para chorar e se sentir viva. 

Pegue este tipo de garota e salve-a dela mesma no alto de uma torre de cristal, toda ornamentada com carinhos embalados em papel celofane cor-de-rosa e beijos calorosos antes de dormir sabor chocolate com menta.  Quando ela estiver crescida , deixe a porta aberta rumo ao mundo. Tudo pronto? Ainda não. 

É preciso esperar por trocentas e sete decepções para que ela finalmente fique no ponto de ser apreciada sem moderação, com calda de chocolate por cima e uns jatos de chantilly. Ok.Ok.Ok. As mais espertas precisam de duzentas e setenta e sete decepções apenas. 

Se estiver de dieta , pode apreciá-la com raspas de limão. Fica ótimo também. 

Garotas desbocadas são como a cor branca : a fusão de todas as outras garotas. A iludida, a apaixonada,  a decepcionada, a  ferida , a decepcionada e ferida mais uma vez , a iludida que pensa que já aprendeu. A sarcástica feroz. A apaixonada mais uma vez. A indignada. A apaixonada outra vez. A sarcástica que tira sarro dela mesma.
 
Não, garotas desbocadas nunca aprendem. Porque lá no fundo , elas não querem aprender. Elas sentem que aprendendo vai ficar tudo muito seco, estilo bolo chato, sem cobertura nem recheio. 

Garotas desbocadas gostam de comer aquele pedação de bolo ainda quente. Se der dor de barriga , a gente geme , grita , chora e choraminga depois. A gente acusa o mundo cruel. As mais reflexivas , acusam a elas mesmas e demonstram um arrependimento que não sentem.

Sim, garotas desbocadas cometem sempre os mesmos erros. Falta de inteligência? Memória curta? Não. Não sabemos viver de outro jeito. E saímos por aí, ás vezes rindo, às vezes chorando, cambaleantes entre o mais rasgado sarcasmo e a mais visceral passionalidade. A vida para nós palpita nos extremos.












Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 

sábado, 28 de janeiro de 2017

Águas profundas e a lama nossa de cada dia

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS


Há dois dias peguei um filme por acaso na TV5, canal francês. O filme era protagonizado por um Jean -Louis Trintignant  de meia idade e uma Isabelle Huppert novinha , com cabelos curtos e o mesmo olhar magnético e impertinente de sempre.

A trama começou a me indignar na mesma proporção que me enredou, que me deixou ali sentada no sofá , com os olhos fixos na tela, indiferente à vida real.

Como um bom filme francês que se preze , Águas profundas , de 1981, está cagando e andando para a normalidade, para o politicamente correto, para o the end convencional. Acredito que os personagens protagonistas tiveram o seu final feliz , mas nada convencional. Ninguém casou ou foi promovido na empresa onde trabalha e dá um duro danado.  O mundo não retribuiu com pétalas de rosas caindo do céu o esforço dos personagens. Não houve prêmio algum para parabenizar suas virtudes.

As virtudes ali eram bem poucas...uma bizarra dinâmica de casal , uma garotinha praticamente órfã de mãe viva , uma série de amantes ocasionais abestalhados , meros joguetes nas mãos de uma mulher muito doente, amada apaixonadamente por um homem igualmente doente.

Ultimamente , estou optando por rever filmes que aprecio a ver filmes que não conheço pois estou bem exigente e até mesmo chatinha quando o assunto é cinema. Quase nada me agrada. Não suporto mais os modelos convencionais de filmes. Me entediam, penso em qualquer outra coisa enquanto os vejo...quando os vejo. Na maioria das vezes , durmo. Durmo e acordo logo em seguida sem remorso algum por ter perdido longas passagens, pois lá no fundo sei que não perdi nada. Que não deixei de ver nada que já não tenha visto centenas de vezes.

Sem querer fazer um trocadilho, mas já fazendo, Águas profundas é um convite para mergulharmos em nossas próprias obscuridades, no lago lamacento que existe dentro de nós , no oceano de possibilidades inusitadas.  Sim, somos doentes , de uma forma ou de outra , em diferentes graus , as pessoas aceitando ou não. O filme é um tapa na cara. Um tapa bem dado com gosto de café forte. Delicioso.




























 
Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 



segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Eu não sei do que eu gosto mais...

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Eu não sei do que eu gosto mais é a minha nova página no Facebook. Uma página de humor apenas ...aparentemente. Mas muita gente vai se ver ali e vai ficar incomodada. Muito bom. Se a gente se incomoda , a gente tem a chance de refletir e mudar. Ou de pelo menos pegar mais leve em algumas manias chatas e condutas inoportunas.

Se nem sempre podemos mudar essencialmente , podemos pelo menos disfarçar alguns defeitos e guardar para nós algumas frases preconceituosas.

Eu não sei do que eu gosto mais é um grito sarcástico e desesperado contra um mundo bem banal e mesquinho, em que as pessoas se sentem superiores por serem heterossexuais , jovens,  por não fumarem, por aderirem ao estilo fitness, por desprezarem o conhecimento e quem se dedica ao mesmo.

Eu não sei do que eu gosto mais é um grito louco para denunciar este mundo que valoriza mais grifes do que livros e bons filmes. Este mundo sem senso de humor do politicamente correto, cheio de gente azeda que prefere comentar o que odeia a elogiar o que ama.  Este mundo de gente apressada que critica sem ler até o final.

Este mundo de gente hipnotizada pelas baboseiras da literatura de autoajuda, sem a menor abertura para um conhecimento mais profundo. Este mundo que joga para debaixo do tapete os deprimidos ,  que insiste em reiterar preconceitos contra a mulheres , contra os pobres , contra os negros , contra os gays , contra as garotas que passaram dos 30 anos, contra os obesos, contra as pessoas que questionam o status quo. 

Este mundo sem alteridade, em que as pessoas acreditam que seus filhos podem fazer qualquer maldade contra as pessoas por serem crianças. Este mundo em que as pessoas acreditam em que o outro não existe ou não importa. Este mundo que acredita que os  pobres precisam limpar os excrementos dos ricos. Que as pessoas precisam ser ironizadas e discriminadas por adotarem um estilo diferente de vida. Este mundo que faz os intelectuais morrerem de fome.  Este mundo cheio de machões e gente superficial e hipócrita.

Se você também é um questionador , entre e saboreie com boca boa os meus pensamentos marinados com baba ácida rs Bom apetite!


https://www.facebook.com/Eu-não-sei-do-que-eu-gosto-mais-1881963282041512/
























Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas. 




quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Amor, amor , amor...

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS
 
Antes de ingressar no mundo da Psicanálise, quando eu ainda tinha algum resquício de crença no sonho americano, não gostava de ler os textos da Tati Bernardi nem os do Contardo Caligaris.
 
Hoje , me delicio com estes dois colunistas do jornal Folha de São Paulo. Caligaris é um psicanalista italiano, que já viveu em vários países.
 
Seu texto de hoje gira ao redor de um ditado popular bem conhecido por aqui, em terras tupiniquins. Pelo texto do autor , este ditado também é bem famoso na Itália: " Dois corações e uma cabana", traduzindo do Italiano para o Português. Aqui, falamos "Um amor e uma cabana".
 
Caligaris , apesar de extremamente realista em relação a tudo, incluindo o amor, não deixa de dar crédito a este sentimento que nos faz nos reinventar.
 
Ele admite que por amor mudou de país, de língua , de profissão.
 
Sim, o amor nos faz querer mudar , ser diferente ou até mesmo nos aproximar mais daquilo que julgamos ser o nosso eu verdadeiro.
 
Me identifiquei bastante com o texto porque por amor também fiz escolhas drásticas em minha vida.  Joguei, inclusive , para debaixo do tapete muitos dos meus valores. Certo? Provavelmente não. Mas quem somos nós para julgar os atos movidos pelo amor num mundo tão cinza e indiferente como o nosso?
 
Sim, creio que haja limites para tudo, mas o amor tem um quê de amoral. Não confundam amoral com imoral...
 
Sim, o amor me levou para terras distantes que existiam dentro de mim. Paraísos perdidos abandonados em meu próprio coração.
 
Por amor , eu já atravessei mares de preconceito, preconceitos meus. Nossos preconceitos são sempre os piores pois não há como fugir deles. É preciso aceitá-los ou assassiná-los com as próprias mãos, sem medo de se sujar com o próprio sangue.
 
Sim, lidar com o preconceito alheio é muito mais simples. Para o preconceito alheio basta um olhar de desdém, como o de alguém que está sentindo cheiro de pum, para a coisa cair por terra.  Ninguém verdadeiramente nos oprime com seus julgamentos nojentos se não somos cúmplices de algum modo, em alguma medida.
 
Para mim, nunca houve nada mais vital na vida do que o amor entre um homem e uma mulher. Falo entre homem e mulher pois sou heteroafetiva. Apenas por isso. Não vejo diferença entre o amor entre duas pessoas que carregam o mesmo genital ou genitais diferentes. Amor é amor e para mim sempre foi o que mais contou. Sempre foi o que eu mais quis.
 
Existe algo de quase sobrenatural entre duas pessoas que se identificam ferozmente num mundo tão cheio de desencontros.
 
Existe algo de quase sobrenatural entre duas pessoas que se comunicam apenas com os olhos num mundo tão cheio de palavras vazias.
 
Como disse um professor de teatro, cumplicidade é o que mais desejamos e o que menos temos.  E muitos vão se conformando com a banalidade de diálogos sem alma, parcerias que poderiam se desfazer facilmente a qualquer momento, amores circunstanciais.
 
Talvez , o amor circunstancial seja o maior triunfo do status quo: uma cópia vagabunda do amor verdadeiro, vendida a preço de ouro.
 
Toda vez que acredito encontrar este amor menor e vital, sinto uma alegria meio desesperada.  A alegria daqueles moleques sapecas que subiram no topo da árvore. A alegria daqueles que sabem que existem dois caminhos possíveis: se manter onde está ou despencar.
 














Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.