terça-feira, 5 de setembro de 2017

A vida cabe numa taça de Margarita

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS



Uma das pequenas delícias do amor é se botar de quatro na cama , esticar o braço para pegar qualquer coisa na mesinha de cabeceira , vestindo apenas calcinhas de rendas. Se elas estiverem levemente esgarçadas , melhor ainda. Dão um certo ar blasé , estilo "estou nem aí para esta coisa de roupas novas , calcinhas impecáveis e mais uma série de itens que fazem a cabeça das mulheres comuns".

Gosto de esticar bem o corpo , empinar bem as nádegas só para merecer um beijinho ou uma mordiscada no bumbum, sem passar horas na academia. 

Gosto de todo o caos mais ou menos organizado que ronda o quarto de um casal. Certas repetições , alguns lugares comuns que fazem parte do mise-mise-en-scène da vida a dois.  Eu finjo estar pegando alguma coisa ( ou estou pegando mesmo) e ele me morde com o vigor de um gesto novo e eu me surpreendo com a risada de sempre. 

Gosto de toda a rotina meio bagunçada que ronda a intimidade de um casal. Certas surpresas , pequenos imprevistos que fazem parte do frenesi do estar junto. A gente muda de planos no minuto final e de repente a vida cabe numa taça de Margarita.  Fica tudo com gosto de tequila queimando a garganta, um salgadinho nos lábios da alma sussurrando "Quero um gole a mais...". Mas precisa ser um daqueles bem longos! 





























































Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.










quinta-feira, 13 de julho de 2017

Declaração de amor niilista!

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

A vida não faz sentido. Mas comer sushi é bom.

A vida não faz sentido. Mas tomo meu vinho gelado com boca boa.

A vida não faz sentido. Mas quero fazer amor.

A vida não faz sentido. Mas estou louca por um crepe vendido em praça de alimentação ou enviado delivery dentro de uma caixinha.

A vida não faz sentido. Mas minha camisola bordô ainda é nova e quero usá-la até a renda se partir como as das minhas calcinhas surradas.

A vida não faz sentido. Mas ainda não aprendi a dançar tango nem Flamenco.

A vida não faz sentido. Mas ainda não li Proust nem Joyce.

A vida não faz sentido. Mas quero ir ao churrasco de domingo.

A vida não faz sentido. Mas quero ainda ouvir a campainha do teatro antes da peça começar. Quero me sentar no balcão do Municipal.

A vida não faz sentido. Mas quero comer um punhado de cerejas frescas no Natal. Levar um figo á boca. Me sujar.

A vida não faz sentido. Mas quero ganhar mais um presente de aniversário, rasgar o papel com mãos ávidas.

A vida não faz sentido. Mas quero chorar ao som de Henry Mancini ou de Michel Legrand ou de Maurice Jarre.

A vida não faz sentido. Mas quero escrever mais uma poesia ao som de Charles Aznavour  e dividir um fondue ouvindo Ne me quitte pas e pensar em tudo escutando Que rest t-il de nos amours.

A vida não faz sentido. Mas quero lembrar da minha infância por meio do cheiro de orégano e manjericão do molho da macarronada.

A vida não faz sentido. Mas quero fazer mais alguns gestos tempestuosos , ver mais filmes de arte , enfiar os pés pelas mãos , ser eu mesma com o meu batom vermelho.

A vida não faz sentido. Mas preciso tomar mais um banho de chuva, ter seus olhos sobre a minha blusa colocada , rir meio bêbada , sem medo de nada.
 
A vida não faz sentido. Mas quero mais uma vez dormir em seus braços.

A vida não faz sentido. Mas gosto de ver o seu sorriso, o seu corpo caminhando na direção do meu, seu colete , seu jeito de menino amadurecido às pressas na plataforma do metrô.



















































 
 















Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.








Sou aquilo que dizem que eu não sou

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Sou o que sou: caos e fúria dançando nus por trás de um véu fino e transparente de delicadeza meio afetada. 

Sou a que ri e a que chora depois de esvaziar um copo de vinho gelado ao som de Henry Mancini.

Sou a que entende a tragédia da vida com ares professorais e se chafurda contorcida de dor e desespero por não suportar aquilo que peço aos outros para aceitar. 

Sou a que deseja paz enquanto se envolve em guerras homéricas. Sou a casta que se entrega despudoradamente aos meus mais insanos caprichos.

Sou a que busca pela desordem irreverente enquanto toma uma taça de espumante tranquilamente. A voluptuosa que só quer dormir abraçada. 

Sou a menina que cresceu em escola de freiras vestindo uma camisola de rendas. Sou a menina de rua que quer virar mulher só para ser chamada de senhora. 

Sou aquilo que os outros imaginam que eu não seja. 


























































Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.









quinta-feira, 1 de junho de 2017

Amor , apenas o amor

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

É como se eu tivesse vivido num coma existencial durante milênios, querendo ardentemente o que eu mais repudio, o que eu mais não desejo para mim. 

É como se eu corresse na direção de algo que não quero. Finalmente , me vejo nua e crua na frente do gigantesco espelho da alma. Sou pérfida. Sou suja. Pouco me importa a minha mesquinhez. Sou o que sou. Tenho amor de sobra para dar.  Mas não quero correntes a me aprisionar.

Sou como o vento: leve e fluida. Sou como o metal: pesada e trágica. Não caibo em nenhuma palavra. Estou no campo do real. Estou no campo daquilo que não pode ser dito. Sorrio.  Que delícia!

Quase gozo diante do indescritível.  Bebo mais uma taça de vinho. Morro de amor por você. Morro de amor de mim.  A vida é cinza , mas vejo mil cores dançando à minha frente , retirando os seus véus , me sorrindo cheias de malícia. O vermelho explode. Sou tua. És meu. Nada mais importa. 






















































Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.










domingo, 28 de maio de 2017

A vida é meio escatológica

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Acho que sou a única mulher no planeta Terra que solta pum...ou seria melhor dizer , a única que peida. Sim, eu peido. E tiro aguinha do joelho e cago com gosto. Acho um frisson a saída do cocô. É quase uma massagem relaxante. Não digo que seja de graça pois um bom e macio papel higiênico tem o seu custo.

Quando as mulheres se recusam a falar sobre peidos ou usam termos infantis para se referir aos atos de evacuar , sinto que os odores emitidos pelas mesmas fedem menos.  O poder das palavras. Sim, palavras têm o poder de maquiar realidades duras. Mas por pouco tempo...basta um jato forte de água para borrar o rímel e  transformar a base e o blush numa massaroca. 

Viver e amar não é só declamar versos e aspirar o odor de flores e acariciar as pétalas macias de rosas.  A vida tem a sua porção escatológica e ela é bem grande, gostando ou não, aceitando-a ou não.

Não importa a marca do batom e o quanto é caro o  creminho que passa no rosto antes de dormir para dar um up-grade na pele. Não importa o quanto seus dentinhos sejam bem escovadinhos. Ao amanhecer, podemos sentir em nossa boca e na boca da pessoa amada milhares de pequenos cadáveres dançando.

Não adianta o preço do rímel , os olhos amanhecerão com remelas. Não adianta evitar ao máximo palavras que se refiram a dejetos. Todos nós iremos fazê-los com seus odores típicos.

Não adianta saber combinar uma bolsa com sapatos como ninguém. Ainda exalaremos um cheiro azedo caso fiquemos um dia inteiro sem tomar banho . Principalmente se for um dia quente. E quando o suor secar na roupa , vamos sentir cheiro de qualquer coisa velha , com data vencida. E depois de um dia incrível, pensaremos meio indignados : "Mas este cheiro é meu mesmo? 

Cheiros constrangedores parecem pertencer apenas aos mais pobres e feios. Não, não se iluda. Seu creminho anti-idade não te faz mais jovem nem teus perfumes caros essencialmente cheirosa.

É tudo fantasia , ilusão. E quem tiver senso de humor , saberá rir desta gigantesca piada que é existir. 













































Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.











quinta-feira, 25 de maio de 2017

Poesia na veia

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS

Gosto do teu cheiro pela casa. O gosto do fumo em sua boca. Respiro lentamente , caindo em queda livre nos abismos caóticos da minha alma de poeta. 

Ando nua e descalça por terras imaginárias, tecendo poesia com minhas memórias vagas. Teu cheiro me leva para o meu paraíso perdido, para a minha terra prometida onde jorrarão vinho e melodia.  Onde me colocarei a dançar loucamente ao som das verdades tecidas por minhas mãos. 

Detesto o moralismo desta gente que não sabe gozar. Detesto o moralismo que ainda reside em mim , segurando o meu braço com violência diplomática , trancando em meu peito, em minha garganta , em minha boca o grito louco que não quer parar. 

Quero correr pela rua sem ter hora para chegar . Quebrar os relógios do mundo. Me atirar em seus ponteiros e simplesmente brincar e brincar e brincar pois tudo não passa de uma grande piada. 

Quero o teu beijo antes de dormir pois é um dos poucos clichês que posso suportar sem cair aos prantos ou na gargalhada. Quero o teu beijo pois ele é a sua parte que pertence a mim. É a parte que posso engolir e deglutir como o mais venenoso dos frutos proibidos. 

Não temo os venenos . Temo as curas. Gosto de me olhar no espelho e me ver assim meio torta , meio irônica , meio doce. Meio sua , meio minha , meio desta humanidade perdida , que crê na Salvação do Deus espinafre e que tece preces aos santos rúcula , acelga e tomate sem azeite. 

Continuo a me envenenar comigo mesma , com minha poesia suja e barata. Com o meu amor que se chafurda em lençóis amarfanhados.  




































Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.












terça-feira, 23 de maio de 2017

Uma ode ao amor louco

Garota desbocada é um espaço visualmente tosco, ideologicamente irreverente, em que posto artigos politicamente incorretos sobre as minhas insatisfações e inquietações. Se quiser rir e praguejar comigo, entre e fique à vontade RS


Disse à minha analista que era uma vaca. Sim, sou uma vaca. Sou forte , sou fêmea. Não temo o meu desejo e o olho nos olhos , sorvendo teu sangue com boca boa . Com a boca de quem sabe o que quer ou imagina saber.

Sim, sou uma vaca pois não me quebro diante do teu olhar . Pois controlo o fluxo do prazer até render-me a ele. Porque sou o que sou nos teus braços indecentes. Porque sou o que sou na minha ânsia imprudente de ser eu mesma.

Lembro de nós dois caminhando pela rua numa noite de chuva.  Aprisionou-me na tua memória como aquela mulher que te queria sem te querer. Teu desejo me arrasta ao ponto de partida da nossa história. Teu desejo me obriga a ser a fêmea que transforma seu maior medo em sua maior coragem. E continuo a vagar por uma chuva imaginária , bebendo de um futuro que me parece cada vez mais seguramente incerto ou incertamente seguro. 

O caos virou nossa rotina. Roupas pelo chão. A louça por lavar. A garrafa de vinho vazia rindo da nossa cara. Rio também. Você me indaga. Não sei dizer o porquê. 

Sou esta poça de imundície que colore o mundo com cores novas. Sou o odor quente que traz uma lembrança tenra de terras distantes.  Sou o que não posso explicar ou o que não quero entender . 

Seguro tua mão. O calor da tua pele entra em choque com o frio da chuva. Tudo se dilui. 






























Sílvia Marques é escritora, professora doutora e escreve regularmente na Obvious.  Viciada em café, chocolate, vinho barato, dias nublados, filmes bizarros e pessoas profundas.